Do rio e do raio.
Sobre Oxum e Xangô
Subi as escadas do Tagescafé em Munique com o peito acelerado.
Não por causa das escadas.
Primeira vez com os Búzios. Eu ali, sozinha. Contra tudo que me fizeram crer ser certo.
O corpo reagia à alma. As mãos frias, suadas. Uma pressa estranha no peito, como se eu estivesse prestes a atravessar alguma coisa. Ou ser atravessada.
Cresci ouvindo que certas portas não se devem abrir.
Que certas perguntas não se devem fazer.
Que o pecado sempre aparece convite.
Demorou anos até entender que a culpa, ela não some: ela muda de voz. Às vezes grita. Às vezes sussura fingindo cuidado: “Tem certeza que você vai fazer isso mesmo?”
Fiz.
A Ialorixá estava sentada atrás de uma mesa. Uma senhora preta, cabelos grisalhos,
o rosto firme, os olhos vivos demais para a idade que o tempo poderia supor.
Sentei.
O corpo tenso.
As vozes antigas…
Errado.
Não, interessante.
Errado.
Não, necessário.
Errado.
Não, escolha.
Elas já não mandam mais em mim. A menina boa morreu.
A Ialorixá perguntou se eu sabia meus orixás. Não. E isso pareceu bastar.
Os búzios tocaram a mesa.
O som seco.
O tempo espesso.
Segurei as mãos uma na outra.
Suavam.
Esperei. Sentia o cheiro do tempo, a textura das horas, as cores da minha alma.
Enfim, disse:
Você é filha de Oxum e Xangô.
Isso se mostra antes da palavra,
no seu modo de chegar,
de olhar,
de permanecer.Em você, Oxum corre mansa.
Você sente o que falta antes que alguém peça.
Cuida com delicadeza,
mas não se perde no cuidado.
Seu amor não é raso nem disperso:
é escolha.Você não fica onde o afeto vira cobrança.
Sabe nutrir, sustentar, fazer crescer,
mas não aceita que a confundam com sacrifício.De Xangô vem o seu eixo.
A coluna firme,
o silêncio que pesa.
Você não procura confronto,
mas quando a injustiça se instala,
não se esconde atrás da calma.Você observa.
Escuta.
E quando fala,
é porque já mediu.Sua palavra cai com peso,
não por dureza,
mas por verdade.
Você não tolera desequilíbrios prolongados:
ou ajusta o espaço,
ou segue seu caminho.Há beleza no seu gesto,
não como ornamento,
mas como princípio.
Tudo em você precisa ter sentido,
raiz,
fundamento.Eu te digo:
você veio para harmonizar sem se perder,
para amar sem se quebrar,
para fazer justiça sem crueldade.Oxum lhe deu o dom de cuidar.
Xangô lhe ensinou onde parar.
Aquela voz nos meus ouvidos enquanto deslocava algo em mim.
Não como revelação, como reconhecimento.
É estranho ouvir a própria vida organizada em palavras.
Ver gestos antigos ganharem nome:
Limite.
Cuidado.
Peso.
Do rio e do raio.
Saí dali sem resposta definitiva. Fé, não como dogma, mas como direção.O corpo mais inteiro de quem entende que não precisa se explicar tanto para seguir.
Meu rio corre. Meus raios sabem quando cair. E isso, por agora, basta.
Oxum e Xangô são orixás das religiões de matriz africana, especialmente do candomblé, formadas no Brasil a partir de tradições iorubás trazidas por povos africanos escravizados. Essas religiões não funcionam como sistemas de crença dogmática, mas como cosmologias simbólicas que organizam modos de estar no mundo, relações éticas e forças da natureza.
Oxum está associada às águas doces — rios, fontes, nascentes. Representa o cuidado, a fertilidade, o amor, a sensibilidade e a beleza entendida como princípio vital, não como ornamento. Oxum é também inteligência emocional, escuta atenta e capacidade de sustentar a vida sem se anular.
Xangô está ligado ao fogo, ao trovão e à justiça. É o orixá do equilíbrio, da palavra que pesa, da decisão justa. Representa firmeza, responsabilidade e o senso de medida — não a violência, mas a consequência dos atos. Em Xangô, justiça não é vingança, mas correção.
Ser “filha” ou “filho” de um orixá, nesse contexto, não significa adesão religiosa obrigatória. Trata-se de uma leitura simbólica: uma forma de reconhecer traços de personalidade, modos de agir, desafios e potências de uma pessoa à luz desses arquétipos culturais.



Que lindo isso Cami!!!